Uma pausa.

Cássia me ligou dizendo que o irmão da Angela havia falecido e queria que eu fosse com ela ao velório. “Sim, claro. Vamos.” Ela passou em casa por volta da uma da tarde. O enterro seria às três.
Eu tinha visto o Jr apenas uma vez. Ele era adolescente, quase um garoto. E para nós ele continuava sendo o menino, o irmãozinho da Angela.  Mais de uma década depois daquela tarde na chácara da família deles, estávamos eu, Cássia, Angela e Telma em frente ao corpo dele imóvel. Lembrei do menino correndo e pulando na piscina. Da água que caiu no meu braço, e escorreu na pele até cair feito gota sobre a mesa. Eu achando divertida a diversão dele.
Ele era um homem agora, adulto, estável, com uma carreira pela frente, e casado há pouco mais de dois anos. Ainda em lua de mel, minha irmã disse. “Foi um casamento lindo”. “Ah, ele e a esposa eram lindos juntos.”
Oramos com o sentimento das ocasiões em que a dor é tão intensa que ficamos anestesiados de vida. Ao redor uma cena de filme preto e branco em câmera lenta; um sonho daqueles que a gente não entende direito o roteiro, mas sobrevive no final.
Somos breves como uma pluma no ar. E então chega a pausa do vôo e ponto final.
Depois da oração eu e Angela nos abraçamos e um pensamento saltou à minha boca.
“Angela,  por gentileza, como é o nome da esposa do seu irmão?”
“Ana Carolina. Ela está na outra sala. Eu levo você até ela. Vem…”
Vi a moça rodeada de pessoas e reconheci Tereza. Ana Carolina era Ana…  a minha terapeuta.
Sincronicidade? Coincidência? Nos abraçamos e choramos juntas.
Veio em mim a lembrança das nossas reflexões sobre a minha vida, a  Boa Morte,  a minha fala, o meu luto, o choro, a morte de um grande amor, o riso e a esperança entre perdas e mais perdas.  Eu experimentei a ressurreição e Ana acompanhou a minha dor no exato momento em que ninguém esteve ao meu lado.
“A gente tem que viver cada momento  intensamente”, ela me disse. Seus olhos estavam parados no tempo. As lágrimas não caiam mais, mas ainda havia o choro soluçado. Eu não tinha o que dizer. Naquele momento senti uma compaixão completamente inédita para mim. Eu seria capaz de dar a minha vida para que a Ana não sentisse aquela dor. Mas nada poderia ser feito, nada poderia ser mudado.  Pedi a Deus para que o melhor de mim fosse entregue a ela para que suportasse algo tão definitivo. Tudo havia mudado, completamente. Uma vida toda para refazer e eu sabia o que era aquilo. Nenhum deles quis aquela separação e ela aconteceu pelas mãos do mistério.
Fiquei ali em silêncio. Veio em mim uma tristeza repentina e imensa. O filme incomum era igual a todos. As pessoas chegando, as reações de uma mãe inconsolável, o carinho de Ana tocando as mãos e o rosto do seu amor, o cheiro de orquídeas, a despedida, a procissão silenciosa e o enterro no sol das três da tarde.
Lancei meu olhar sobre a terra debaixo de um céu azul divino. Vi no mistério de todos os dias o abrigo da mãe que não desampara. Talvez o dia mais triste da vida de Ana. A tristeza de um dia lindo. Eis o mistério da fé… morte e ressurreição.
Ana agora encontra o seu amado secretamente em cada alegria íntima, cheia de saudades. Ele vem ao encontro dela em cada pensamento.
Há quem não queira o amor e a cisão acontece.  Há quem queira uma vida inteira juntos e descobre que uma vida é muito pouco para todas as nuances do amor.
“O verdadeiro amor é aquele que suporta uma separação e consegue viver uma saudade.”
Ana Carolina e Erasmo.

2 Respostas to “Uma pausa.”

  1. Lutti Says:

    eh, preciso de fôlego para responder.

    lendo teu texto eu me lembrei tardiamente de um aniversário desagradável: na sexta passada, 7 meses da ida do meu irmão-primo-tão-querido. e a até o barulho da chuva daquele dia não me sai da cabeça. no fatídico dia, por coincidência ou não, eu estava internada no mesmo hospital que ele morreria, sem saber. afinal, eu estava as escuras para fazer um tratamento desagradável e dolorido em que poupava aos meus saber dos problemas, que eu julgava serem íntimos. e tinha dois vestidos, um verde de quando cheguei e o preto com o qual sai. como nada é ao acaso, no mesmo dia em que me internei recebi de minha mãe a notícia de que dividia o mesmo hospital com meu irmão. apesar das dores do tratamento – que espero nunca mais fazer – rezei para que amanhecesse logo e recebesse alta médica para assim o visitar na UTI. eram por volta das 4h da matina quando uma enfermeira veio trocar minhas roupas, remédios e afins. chovia, muito. por uma veia errada eu comecei a chorar tão dolorido que parecia até prenúncio. mas me enrolaram para dizer, enrolaram tanto que já nem podiam me convencer, quando na manhã seguinte fiquei esperando pela médica que nunca vinha. até que finalmente me impediram de subir avisando do fato, (acredite, foi as 4h da manhã) chovia, loucamente. é um transe. pessoas te olham, esperam reações, esboçam qualquer coisa parecida com pena, dor (também, os outros tem disso), qualquer coisa próxima de compaixão. perguntaram para serem gentis, “se havia alguém com quem eu podia contar para me levar para casa”, “algum namorado, mãe” qualquer um comum desses momentos de solidão extrema. não, não havia. só aquele teimosa chuva que me incomodava que varria, que ia embora a sujeita e tudo o resto. saindo do hospital (por sinal, onde nasci, meio que redenção) uma senhora conhecida me abordou com muitas perguntas, o p q eu estava ali, p q havia faltado o trabalho e blá blá blá, fui sã e respondi que estava com pressa, porque… (…) ela, graças, entendeu e me emprestou o guarda-chuva. em casa, um vizinho querido, não me perguntou nada e me serviu um café. no velório parece que as pessoas, assim como as enfermeiras esperavam alguma reação, qualquer coisa próxima do desespero. e eu fui até a minha árvore na chacará dos meus avós, me lembrei dos mortos da minha família, poucos, elenquei um a um: avô, duas irmãs e meu primo-irmão. precisei de forças para olhá-lo naquele caixão, porque um filme longa metragem começou a rodar, e era um filme colorido, colorido que lembrava AACC, MC Donald’s, Girrasol da Alegria e nós, os contadores de estórias no Hospital de Câncer, cenas tão reais de que fez parte como protagonista, meu menino de 15 anos. no enterro, muita chuva, muita chuva. uma chuva barrenta, uma chuva verde-azul, beleza num dia tão triste. vc me fez relembrar cenas, cenas daquele dia, aquela minha dor que se misturava tanto, ora física, ora sei lá…

    mas termino esse texto agora como quero terminar ou começar as coisas, sempre: com um tin tin (…) cheguei em casa e brindei com um vinho tinto sangue, brindei a vida, ao “ímpeto de vida”, aquela sensação louca de vida e morte, dor e êxtase, qualquer coisa próxima da loucura.
    é como a Ana disse, “A gente tem que viver cada momento intensamente”.

    beijo Francisca, te conhecer mesmo via face foi muito bom. quando as coisas acontecem de forma agradável, a gente tem que dividir, tem que contar. OBRIGADA (!!!)

    L.

  2. Flávio de Setta Says:

    Ai, ai, ai, ai, ai………..me pegou!!!!
    Sinto-me arrastado pra junto de toda essa triteza, de toda essa dor.
    Como a cauda da serpente que aparece de repente, sem aviso, provocando dor, mordida repentina que nos lembra o ato do AMOR…….E essa, a tal Condessa Morte, descendo forte suas escadarias, cheia de Si. A Morte, O Amor, A Ressureição……..Explendor!!!! Uma só Alma, Espirito Vivo, Oroboros, mesmo assim Choro

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